terça-feira, 5 de agosto de 2008

Duas crianças a brincar de gangorra


As férias forçadas a que me submeti serviram para que se apossasse desse editor, um sentimento nostálgico, movido pela pureza e inocência das brincadeiras infantis. Lembrei-me dos passeios pelos parques e praças, aonde gangorreava e perdia através do meu olhar fugaz, a noção do tempo. Essas minhas "retinas tão fatigadas", virão nos últimos meses, dois moleques a desafiar o tempo e gangorrear em um sobe e desce alucinante: eis que lhes apresento os juros e a inflação (O caro internauta sente o coração palpitar? Respire fundo e siga em frente, afinal somos brasileiros e o final da frase o amigo conhece)!

A inflação, queda do poder de compra do dinheiro ou do valor de mercado, retirou do guarda-roupa sua farda e voltou a rondar os mercados mundo a fora. A notícia que se espalhou como rastro de pólvora, fez com que o explosivo citado viesse cair sobre as mãos da população carente. Daí a antiga alcunha carestia, usada nos tempos do ministro Rui Barbosa, para a dita-cuja inflação. Os governantes apavorados com o gosto amargo dos petiscos recheados pela ira popular, não hesitam em convocar os juros para a mais uma missão: o controle da dita-cuja, que retorna sem marcar hora. Creio, que para sua absoluta revolta.

No dia 23 de julho, o Copom (Comitê de Política Monetária) elevou a taxa básica de juros (Selic) para 13%. Em prantos limpos (apenas uma figura de linguagem e porque não, conseqüência da inflação), o aumento do consumo, elevou a demanda por produtos e serviços, que perderam valor de aquisição. Bem, os ventos favoráveis e os empréstimos de 2003 a 2007 parecem ter pegado suas malas e partido, deixando o mercado consumidor recente não a espera de milagre, mas de produtos que se escassearam devido a crises alimentícia e produtiva de commodities.

Com a indústria em baixa, a gigante adormecida acordou e mostrou suas garras. E o antídoto lulista para conter o acumulado inflacionário de 6% foi recorrer aos juros novamente, algo que não vinha acontecendo há tempos, devido às seguidas quedas em 2005 e 2007. Ora, a alta não conterá o consumo, entretanto atrairá investidores e capitais voláteis, aqueles que rapidamente podem ser transferidos de uma bolsa à outra. Em período de reconversão, crise passageira pós-consumo desenfreado, toda acautela é pouca. E manter os investidores torna-se um desafio.

O caro internauta, que leu atentamente a este breve panorama, possivelmente chegará ao final dessa postagem com indagações semelhantes as minhas. Não seria sensato investir no aumento da produção, uma vez que o país crescia 6% ao ano? E por que não reduzir os gastos públicos? Resposta óbvia: Vivemos no Brasil! Tudo bem que a médio prazo, o consumo será contido pelos preços galopantes, mas por que sempre somos aquele parceiro largado só no restaurante, a arcar com todas as despesas?

A gangorra não pára, assim como o tempo, descrito por Cazuza. E no dia em vossas retinas se cansarem com tal movimento, não diga ao Banco Central, "Vais me pagar". Saiba que ele nada lhe pagará, apenas lhe afagará com o final deste cancioneiro popular: "Pode chorar, pode chorar".

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11 comentários:

Kayser disse...

Oi, Lucas! Obrigado pela visita no blog. Pode usar as charges, sem problemas. Abração!
Kayser

Wander Veroni disse...

Oi, Lucas!

Show de bola a sua explicação sobre economia/inflação. Lá no Uni-BH tem uma professora ótima dessa área, a Silvânia Araújo, que por sinal trabalha na Fecomercio MG, e ia adorar saber dos seus textos.

Não sei se vc foi ou ainda será aluno dela, mas qdo leio o q escreve sobre economia lembro da aula da Silvânia na minha cebaça...e olha q já tem um tempo fui aluno dela...heheheh.

Acho excelente o trabalho q vcs fazem aqui. É uma prestação de serviço com conteúdo e informação.

Esse ano de eleições municipais é o momento de divulgar e de propor o debate de todos os assuntos que afligem a sociedade. O gancho q vc tomou no texto para explicar algo complexo foi super bacana. A compra no supermercado q a dona de casa faz intefere na economia como um todo...tudo está ligado..

Precisamos ser mais confiante na nossa política para que assim consigamos mudar. Mudar tudo. Renovação que irá influenciar até na economia.

Vamos que vamos!!!

Grande abraço,

=]
____________________________
http://cafecomnoticias.blogspot.com

Camila Paulos disse...

Nossa, Lucas, estou no último ano de jornalismo e já tive no mínimo umas duas disciplinas que abordavam economia. Porém, nunca entendi nada muito bem... essas coisas de Compom, Selic, etc, até que entraram na minha cabeça, mas eu nunca consigo entender uma notícia de economia dos jornais que existem por aí.

Fora que, eu parer pra ler sobre o assunto é uma coisa muito rara...
Por incrível que pareça eu entendi o que você quis dizer e li o texto com atenção até o final...

Parabéns, você é realmente bom nisso.

Um beijo,
Camila

José Roberto disse...

Lucas,

Assim como o internauta Wander, lembrei-me das aulas que tive de economia na faculdade de Comunicação Social, em São Paulo.

Quão entediantes eram as explicações e os jargões, sempre difíceis.

Quando conheci o SFW e me deparei com a editoria de Economia, adicionei o log aos favoritos e desde então, sempre que posso, deixo meus comentários aqui. O por quê é sim: a proposta é diferenciada e merece toda a atenção possível. E mais, aprendo bastante com essa equipe.

Sua explicação sobre juros e inflação foi sensacional e me prendeu até o último fôlego. Parabéns pela irreverência com inteligência. Fantástica postagem!

Abraços a todos.

Stanley Marques disse...

Recorrerei a definição dada a esta postagem por José Roberto: "fantástica postagem". Acho que todos nós, seja no Direito, Economia ou demais áreas, temos o dever de tentar evitar o erudito desmedido, a fim de conseguir o óbvio: ser entendido. Na disciplina Economia, dentro do Direito, leio a obra "Desenvolvimento como liberdade", de Amartya Sen, uma obra magnífica, a qual nos faz pensar no verdadeiro papel da economia na sociedade. Abraços e mais uma vez, excelente texto.

-> Antologia Racional
http://www.antologiaracional.com/

Guilherme disse...

Oi Lucas,

Belíssimo post!! Fantástico. Uma explicação extremamente bem elaborada, de fácil e agradável entendimento e com o humor que só vejo aqui em Economia, no Sem Fronteiras.

É espetacular essa união de palavras do universo econômico, explicadas através de canções, termos populares e pela vivência, pelo cotidiano.

Parabéns pela volta!! Triunfante!!

Abraços amigo.

Leonardo Dognani disse...

Realmente muito boa a explicação! ainda mais usando uma forma descontraída para falar de um problema sério.
E o final realmente, a musica sempre será a mesma, pode chorar...
porém, a parte que diz q irá "afagar" tb poderá ser falsa, pois poderia simplesmente cantar com escárnio "pooode choraaaaar! ha ha ha".
=p

Abraços.

Michell Niero disse...

É isso mesmo, Lucas. A alta nos juros privilegia apenas a jogatina da bolsa de valores e a rentabilidade dos bancos(que, por sinal , não tiveram um semestre tão gordo como outrora).

Como, em mercados como o Japão, por exemplo, consegue-se ter uma taxa de juros ínfima e uma inflação quase zero? Até porque, como você mesmo disse, a alta nos juros não irá conter o consumo. Aliás, está claro, esta inflação inesperada não tem ligação com o consumo, e sim, com questões puramente políticas e estruturais, tanto na economia interna (reforma tributária, dívida interna) como externa (preço dos alimentos, petróleo e o egoísmo neoliberal da rodada Doha).

Fabio disse...

hehehe gostei da charge!


o texto tbm eh mt bom

Leonardo Dognani disse...

cade as novas postagens?
=p

o que acha de falar sobre a 4°frota?
ou aind sobre a tensão entre EUA e Rússia com armas nucleares?(lance da turquia).
=)

abraços.

Roberta disse...

A situação de juros e inflação, bendita gangorra, mas um dia superaremos, um dia, uma noite com bebidas e afogado em dívidas, nossas é claro,... xP~

Gostei muito do texto, ;]

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