sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Um bem ameaçado

Reflexo das trocas culturais advindas desde o período colonial brasileiro, a Folia de Reis é um dos inúmeros elementos portugueses incorporados às festividades nacionais. A comemoração católica que acontece em alguns rincões do Brasil, tem por objetivo relembrar a peregrinação dos três Reis Magos que, ao tomarem conhecimento do nascimento do pequeno Rei dos Judeus, foram o adorar e oferecer-lhe seus presentes - ouro, incenso e mirra.

Principalmente em Minas Gerais, a tradição se mantém viva, mas demonstra sinais de esgotamento. No último sábado (30) fui até Fidalgo - distrito distante das imediações urbanas de minha cidade, Pedro Leopoldo, com o intuito de realizar um trabalho de campo. Teria de entrevistar uma pessoa com a qual nunca tinha estabelecido contato prévio e conhecer sua história de vida.

Numa casinha simplória, rejuntada de barro, parecendo que iria desabar com o suave soprar de uma brisa, envolta pelo som sertanejo que saía de um microsystem e por um forte cheiro de tabaco, encontrei mais que um simples entrevistado. Deparei-me com um típico mineiro interiorano: homem humilde, apaixonado pela natureza, pela tranqüilidade do campo e fascinado pela beleza da vida. Devoto inconteste de Nossa Senhora e de Nosso Senhor Jesus Cristo, dono de uma fé que parecia remover montanhas e de uma humanidade que me impressionou.

Presidente da Folia de Reis naquela localidade, João Nestor da Fonseca, o, popularmente conhecido, João Buíca, relembra com nostalgia do período em que a expressão cultural era valorizada pelos personagens sociais participantes daquela comunidade. “Penso que os jovens de hoje estejam condenando a Folia ao fracasso”, relatou com o olhar centrado num ponto fixo de sua pequena sala. Parecia querer trazer à memória as recordações que começavam a se esvair com o tempo, em reflexo aos seus 60 anos.

Assim como acontece com a Folia de Reis, a banda de Fidalgo, que se apresenta em ocasiões litúrgicas e cíveis, já não atrai a atenção da maioria das crianças e adolescentes. Cabe aos idosos a tarefa de sustentar em seus ombros e braços cansados, os instrumentos, e tocá-los mesmo que lhes faltem o fôlego de outrora. Dessa forma, conseguem aparato para dar sustentação, mesmo que temporal, à tradição.

No contexto da sociedade atual, com uma gama de valores capitalistas – a muitos, mais atrativos que o arcaico e o tradicional -, grupos sociais têm perdido sua identidade enquanto povo, perdido suas referências em detrimento de suas histórias, que por sua vez, possuem suas significações particulares.

A Antropologia nos fornece caminhos para que não nos percamos nesse mundo em profunda transformação, onde acontece uma visível confluência de culturas distintas, algumas sobrepujando às outras. Ao homem é permitido aderir a costumes que não estão presentes na realidade social do grupo ao qual faz parte, sem deixar com que os costumes locais se percam no turbilhão da modernidade. Preservar a cultura é preservar a história. Nesse caso, resguardá-la é uma questão de escolha.

2 comentários:

Wander Veroni disse...

Oi, André!

Que bacana o seu texto, hein! Adoro essa coisa de reportagem de campo, de vc ir ao lugar, conhecer gente nova, ver outros costumes e recorta-los para nós, leitores do SFW. Admiro muito essas festas religiosas como a Folia de Reis que ganhou vida própria dentro da cultura brasileira (e mineira, principalmente!).

Depois passa lá no Café com Notícias. Tem post novo lá.

Abraço,

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LETÍCIA CASTRO disse...

Antes de mais nada, adoro a palavra "rincão" hehehe É tão gaúcha, mas ao mesmo tempo, tão mais expressiva que canto, paragem, lugar, etc. Adorei vê-la no texto.
Agora, André, que show de reportagem, hein? Teve de tudo, a notícia, a crônica, a análise, completíssima. E o mote não poderia ser melhor, também sou uma defensora da preservação da nossa cultura.
Beijo carinhoso pra vc, lindão!

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