terça-feira, 9 de setembro de 2008

De Evo ao desespero


Um país, o gás e o medo de jaz

Amantes de Coca e militantes de esquerda, uma união aparentemente improvável. Por ora, aliar consumo e desapego a bens materiais soa estranhamente ao leitor, que talvez ligue estas pontas da corda aos anos 60 e 70, quando vários jovens aderiram idéias socialistas, sem desvincular-se do prazer de consumir uma coca gelada. Em 2005, a Bolívia, país cocaleiro, conheceu o indígena que levaria o país a se destacar nos noticiários latino-americanos e até internacionais: o senhor Evo Morales.

Eleito com a ajuda do influente e não menos populista, Hugo Chávez, Evo assumiu o país com ideais nacionalistas e com o pensamento de mostrar uma nova Bolívia aos parceiros e vizinhos. Uma república popular, que além da coca, produz minério na região de Santa Cruz de la Sierra e Potosí, e o não menos importante, gás natural. Aliás, fora este produto advindo dos campos de exploração bolivianos que gerou a primeira grande polêmica do governo Morales.

Saindo do campo político para o econômico, o presidente boliviano pôs em prática, um dos seus planos de gestão: a nacionalização do gás natural. Desta forma, todas as empresas privadas do ramo, inclusive a Petrobrás, a maior e mais influente na Bolívia, foram entregues às Jazidas Petrolíferas Fiscais Bolivianas (YPFB). A quem tenha “rodado a baiana” com o momento “Lula paz e amor”. Se a autoridade maior da nação, declaradamente, nada vê e ouve, esse editor enxergou a ferida se abrir ao vento e sagrar.

A dependência nacional criada acerca do gás boliviano tornou-se nítida aos olhares do mais leigo dos brasileiros. Hoje, pagamos a duras penas, o pato pelos governos passados terem perdido o bonde da história, não investindo no gás natural. A compra de gás da Venezuela e as pesquisas e produção na Bacia de Campos minimizaram o problema, entretanto na curaram a chaga. Se neste momento, o caro amigo internauta, lê este texto imaginando no que poderá a vir de pior por trás desses erros, respire fundo e tome uma água.

A Bolívia garantiu que cumprirá com o fornecimento de gás ao Brasil e a Argentina. A questão é a necessidade que o país tem em garantir reservas prováveis do combustível, algo em torno de 498 bilhões de m3 até 2031, para os contratos em vigor com os países citados. E mais 519 bilhões de m3 para novos acordos. A estatal boliviana crê em 617 bilhões de m3 prováveis, mas o governo deve investir quase três vezes menos que os analistas recomendam para que a república atinja suas metas.

Se o caro internauta possui um veículo movido a gás natural, não se desespere por enquanto. O fornecimento está controlado e as perspectivas negativas são futuras, podendo ou não ser confirmadas. No entanto, vale o alerta e a atenção acerca dos atos da pasta de Minas e Energia, que durante anos se voltara ao investimento hidroelétrico e que somente agora, destinara valores significativos na descoberta e ampliação de outras fontes, como o gás natural, o petróleo de águas profundas e as energias renováveis, como os biocombustíveis.

Enquanto isso, a Bolívia, em pé de guerra, em meio às velhas discussões políticas entre mineradores e cocaleiros, perde o gás e se pergunta: o que mais?


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3 comentários:

Arthurius Maximus disse...

Se continuar como está, a Bolívia mergulhará num caos social e político de conseqüências imprevisíveis.

José Domingos Costa disse...

Um blogue é, basicamente, um espaço onde quem detém a sua propriedade tenta dar a outros a sua perspectiva de como vê o mundo, mas às vezes, não raras vezes direi mesmo, apenas o seu mundo.

Manda, contudo, o decoro e até o bom-senso que se seja objectivo, para se evitar cair na parcialidade e, o que é pior, ser-se injusto. Ora a mim parece-me, repito, parece-me, que ― ao deixar-se passar a imagem de que todos os colombianos seriam um caterva de traficantes e (vários) militantes de esquerda dos anos 60 e 70 inveterados cocainómanos ― se mistificam questões, se fazem juízos de valor sem mergulhar na raiz dos problemas, faltando a esta análise elementos que permitam um maior distanciamento, logo uma maior isenção. Isenção essa que poderá não estar no espírito de quem escreve, admito, mas está, certamente, no desejo de muita da gente que lê o que aqui se escreveu.

Guilherme disse...

Eu discordo do leitor acima, que não soube analisar a situação. A Coca, em letra maiúscula, refere-se ao refrigerante, marca do capitalismo selvagem. E a esquerda faz alusão ao socialismo.

Ou seja, não houve pessoalidade, e sim uma alusão inteligente, assim como o texto, que deixa claro o quanto o país ficou para trás na questão energética. Confiaram nas hidroelétricas apenas, e só agora atentaram para o gás e o petróleo.

Agora, resta recuperar o tempo perdido.

Grande abraço Lucas.

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