sexta-feira, 27 de junho de 2008

Fantasia e realidade: o florescer de dois mundos em Rosa


Hoje, o SF tira o chapéu para um ilustre e inesquecível literato mineiro, que de forma intensa e apaixonante viveu seus 59 anos. Falar de Guimarães Rosa é um prazer inenarrável para mim, editor de cultura do blog.

Há, exatamente, 100 anos, nascia na pequena Cordisburgo - cidade próxima a Curvelo, coração das Minas - um dos mais importantes representantes da literatura brasileira: Guimarães Rosa ou Joãozito, como era chamado o garoto que aos sete anos, espantava a todos mediante a sua extraordinária inteligência.

O meu primeiro contato com o mundo roseano foi há alguns anos, quando fui à Cordisburgo. As palavras esquisitas que saíam das bocas dos contadores de histórias - jovens que apresentam, aos turistas, pequenos trechos das obras do autor - não me interessaram muito, mas eu bem sabia que aquelas palavras que formavam frases poéticas por mais estranhas que, para mim aparentassem, guardavam seus segredos.

Através de uma linguagem plástica e apurada, Guimarães faz com que o leitor (re)descubra o sertão e o sertanejo. A linguagem singular de Rosa apresenta a nós, leitores, os cenários selvagens do interior mineiro e os conflitos mais profundos ocultados nos corações de seus personagens.

Suas obras não são apenas sagas mágicas no sertão hostil das “Gerais” - expressão utilizada por ele em suas obras. É mais, muito mais. Rosa apresenta os conflitos internos dos seres, conflitos que transcendem as dificuldades impostas pelo tempo e o espaço. São histórias em que figuram personagens brejeiros, roceiros, mas que representam a coletividade. O homem, independente de onde viva e da posição que ocupa na sociedade, vive, ama, se enfurece, procura suporte, se entrega às paixões.

As minhas reservas quanto à linguagem roseana foram desfeitas quando pairou em minhas mãos - num abençoado dia - a obra Corpo de Baile e nela encontrei o conto ou novela - como preferem alguns - Miguilim que dispensa comentários. É, com toda certeza, um dos meus favoritos. A partir daí, tenho procurado me enveredar no mundo sertanejo de Guimarães.

O linguajar, os trajes, causos, a natureza, o misticismo que envolve o sertão das Minas. Tudo era meticulosamente descrito nos diversos cadernos que acompanhavam o autor na sua “sina” em desbravar o interior mineiro. Os elementos de nossa rica cultura, por mais simples que fossem, fizeram com que Guimarães fincasse ainda mais profundamente as raízes que o prendiam aqui e lembrasse com perturbante nostagia das Gerais onde quer que estivesse, fosse em Hamburgo, na Alemanha, ou Bogotá, capital colombiana, locais onde foi embaixador brasileiro.

Durante a Segunda Guerra, Guimarães e D. Aracy - sua segunda esposa - pouparam muitos judeus de serem mortos de maneira bestial nos campos de concentração de Hitler, ao facilitar suas fugas. Em 1985 o célebre casal foi homenageado pela sua ousadia em arriscar suas vidas e lutar contra o terror nazista de maneira nobre e intrépida. Hoje D. Aracy sofre do Mal de Alzheimer, doença que a cada dia lhe subtrai as lembranças de um passado sublime.

No dia 16 de novembro do ano de 1967 - três dias antes de falecer -, Guimarães tomava posse na Academia Brasileira de Letras, após passar quatro anos postergando o momento por medo da evidente comoção que apossaria dele na ocasião. Em um discurso carregado de emoção, Guimarães - que há um ano passara a apresentar problemas cardiovasculares por causa do cigarro - parecia pressentir o que estava para acontecer. Dois trechos de sua fala marcaram o discurso aos imortais da Academia.

"(...) a gente morre é para provar que viveu."
"As pessoas não morrem, ficam encantadas"

Guimarães foi mais que um gênio da nossa literatura, mais que um estandarte do movimento modernista brasileiro. Foi homem sábio, compassivo, humano, reservado, sertanejo, um bom mineiro. Orgulho das Gerais para todo o sempre.

Dica cultural

A dica cultural de hoje é uma das atrações que fazem parte das comemorações do centenário de Guimarães.

A partir de amanhã (28) a Biblioteca Pública da Praça da Liberdade abriga a exposição que conta um pouco da história desse magnífico escritor mineiro. Os visitantes poderão, ainda, conferir os principais trechos das obras roseanas.

A mostra estará aberta ao público até o dia 8 de agosto.

Aproveitem!

Mais informações pelo telefone: (31) 3342-1692.

10 comentários:

Kátia disse...

Feliz aqueles que têm a oportunidade de ler as obras de Guimarães Rosa. Sou grande admiradora deste escritor que fez história no cenário literário e fez história na minha vida.

Raphael Ventura disse...

gostei do texto ;

http://raphaelventura.blogspot.com/

Gilberto Puppet disse...

De acordo com o seu relato apaixonante pela obra roseana e, se eu morasse próximo, eu iria nesta amostra com certeza!

Ótimo blog.
Abraços!

Dário Souza disse...

Texto longo,mas bastante agradavel

nyck disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nycole Cardia disse...

Amei conhecer mais sobre a vida de Guimar�es Rosa. S� ouvia falar dele na TV e nem dava a devida aten�o, mas agora com certeza vou procurar ler seus livros!!!

Gostei muito do layout do blog e dos textos, que s�o impec�veis!!

Sandim disse...

André, ótimo texto, aonde Guimarães estiver ele está satisfeito com o texto
Inté.

Mariana disse...

Rosa é único! lindo!

Miriane disse...

Nossa Dé, amei o texto e começei a gostar dele com a msma novela q vc! O miguelim e miguelão! mtuu boaa!

Tatiana Rodrigues disse...

ótimo texto, André!
Fez jus a esse grande escritor que nos mostrou a beleza do sertão, nos contou o recado do morro e nos permitiu ler suas primeiras estórias!

Parabéns!

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