quarta-feira, 16 de julho de 2008

Vergonha de ser honesto

Quem escolheu fazer uma faculdade de jornalismo, com certeza ouvia diferentes impressões, porém todas convergindo em um mesmo eixo: há aqueles amigos e parentes mais moderados que simplesmente diziam, “a mídia influencia a população” e por isso, queriam dizer basicamente nos hábitos de consumo, comportamento e coisas banais da vida cotidiana. Com certeza, havia também aquele tio e aquele amigo maniqueísta, que viam a imprensa como “um diabo, uma poder que manipula os desmiolados” e por isso, diziam que “somos quase que ordenados a escolher candidato tal”, “aprovar ou rejeitar determinado Governo”, enfim, tudo da esfera não-cotidiana. Mas claro que havia o amigo ponderado que se limitava a dizer: “A mídia é o reflexo da sociedade na qual está inserida”.

Depois de passar enfadonhos anos ouvindo parentes e amigos, divididos especificamente nessas subclasses, adentramos o “mundo perfeito de Bobby” da faculdade e pensamos: “Pessoas novas, com idéias diferentes e personalidades distintas! Agora sim minha percepção do que é o jornalismo vai mudar”. Que nada! É a mesmíssima coisa, (chata por sinal), porém, encorpada em diferentes cabeças. As discussões são praticamente as mesmas, daqueles que se dividem em no mínimo amenizar os poderes do efeito midiático, aqueles maniqueístas, que insistem na repulsiva teoria de que a mídia é um “Grande Satã”, vestido de diferentes modos: numa página de jornal, na imagem de uma TV, nas ondas do rádio etc. e no ponderado colega ou professor, que não está lá, nem cá. Vem então a triste constatação: até mesmo no já desmoronado “castelinho de areia de Bobby”, há a divisão nas três subclasses.

Porém, todos estão errados. A mídia na verdade, são esses vários instrumentos que adentram nossa casa, às vezes sem até mesmo querermos e que nos dão um delicado, mas ardido tapa com luva de seda. Esse tapa, nos faz chacoalhar a cabeça e cairmos na realidade. Faz-nos percebermos o mundo no qual estamos. E eu, depois de levar alguns tapas finalmente “caí na real” e consegui abstrair a mensagem! Entendi o mundo que estavam querendo mostrar! Deus... e era tão simples! Minha conclusão é a seguinte: não podemos mais ser honestos! Claro como um cristal.

Para começar a explicar o raciocínio: hoje, vemos sendo deflagrados esquemas e mais esquemas de picaretagem, malandragem, sendo descobertos a torto e a direita, onde os personagens desviam dinheiro, descumprem o Código Jurídico quase que por completo, ludibriam o (Des)Governo. Exemplos? Muitos: Pasárgada, Toque de Midas, Navalha, João-de-barro, Satiagraha, Hígia, Afrodite, Caipora, Xeque-Mate... A semelhança entre todos? Davam-se, ou melhor, se dão bem na vida. Afinal de contas, ingenuidade e tolice pensar que por melhores que foram todas as operações, que elas se desmantelaram por completo. Que nada! Sempre há mais um.

Pior ainda do que terceiros enganando o governo, o Estado, é quando gente do governo, da política em geral aplica golpes naquilo que os emprega e naqueles que os elegeram. Exemplos? Os desvios de verbas públicas, as licitações erradas, o nepotismo, as sonegações... E em todos os âmbitos: municipal, estadual e federal. Não há ninguém que se safe.

E agora, a prova mais cabal, não de que não podemos ser honestos, mas como a mídia está nos mostrando a maior inversão pela qual estamos passando: quando o Estado, torna-se nosso inimigo. Quer mais exemplos? A Polícia carioca que mata civis, mesmo que fossem bandidos, e diz que agiu corretamente, os bebês que são encontrados mortos em armários de hospitais públicos, a professora que é agredida em sala de aula, o aluno que não tem um caderno...

A mídia está aí no seu papel, seja ele qual for, mostrando tudo o que está acontecendo e a conclusão, apocalíptica, concordo, é essa. O que nós, cidadãos guiados pela ética, pelos bons-costumes estamos ganhando? Nada. Somos a cada nova notícia, postos contra a parede, e sendo perguntados: “Por quê eu não posso isso?” e sendo na mesma proporção questionados: “Isso é certo?” Não existe mais isso! Tudo é certo, tudo é possível! Sendo assim, vou me corrigir: a questão não é ser “honesto” ou não, devemos “ser”... simplesmente isso. Mas ser o quê? Essa pergunta, hoje, não cabe mais: você escolhe.

Se você ainda não percebeu isso tudo, não se preocupe! Você ainda vai levar um tapa.

15 comentários:

guilherne disse...

Uau!
Levei um tapa sim, cara! Acabei de levar! Excelente artigo.

E muito verdade tudo o que você disse: há uma inversão generalizada de valores. Seu artigo é um protesto bem elaborado e consciente.
Gostei mesmo!

Andreato disse...

Ainda meio 'inerte', se assim psso dizer...

O pior pra mim eh o Estado contra nós! O que aconteceu, por ex. no rio, daquele administrador foi nojento!

Kátia Regina de Brito disse...

Lucas,

Interessante seu artigo. Penso que no Brasil e até mesmo no mundo, não existe o lado bom e o lado ruim, os fracos contra os fortes ou o bem contra o mal. Essas dicotomias estão dentro de nós cidadãos, dos políticos, dos órgãos públicos, enfim de todos.Entretanto sempre temos a opção de escolher qual dos lados queremos que predomine sobre o outro. No caso de nós cidadãos e ,me vejo incluída, optamos por nos acomodar. Ficamos assentados vendo este espetáculo, no qual achamos que eles são os palhaços, mas na verdade o nariz vermelho é nosso!
Já está na hora mesmo de protestarmos contra a sessão impunidade que tomou conta do Brasil.
FORA SR MINISTRO GILMAR DO STF
Parábens, Lucas.

Robson Delgado disse...

Postagem curiosa sobre diversas perspectivas! Alertou me!

Abçs

Renato Alt disse...

Excelente artigo, Lucas.
Mais do que apenas uma reflexão, é um texto que nos leva à nossa própria. Se mais tempo fosse gasto com pensar ao invés de com o reclamar, talvez os cenários que vemos já estivessem um tanto diferentes.
Abraços.

Márcia disse...

Ei querido!
Bom, é isso aí né: esses espetáculos acontecendo, e como disse a internauta Kátia, o nariz vermelho é sempre nosso...

Petter disse...

o nariz vermelho é sempre nosso [3]

infox comp disse...

Impressionante... Muito bom o post!

Realmente um tapa.

Sempre com conteudo e bem escrito!

Parabéns!

Stanley Marques disse...

Grandioso texto. Perfeito. Por mais triste que possa se apresentar, é a simples realidade. A verdade. Escrevi dois textos que se assemelham a este. Sugiro a leitura.

http://antologiaracional.blogspot.com/2008/07/quo-moral-hipcrita.html
http://antologiaracional.blogspot.com/2008/05/mudando-de-opinio.html

passa lá
http://www.antologiaracional.com/
parceria??
Abração e mais uma vez, excelente texto.

Stanley Marques disse...

Acrescentando: valores? O que são? Cada um tem o seu. E ponto. Haja subjetividade.

Stanley Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Stanley Marques disse...

Ah, sobre o convite de parceria, desconsidere. Já somos!

Grupo Saber Viver disse...

Creio que mídia naõ só exclarece valores como constroe alguns, o problema é ético, o que se divulga, como se divulga e quando se divulga, não acredito que exista uma midia "pura", que não tenda para algum lado e nem seja subsidiada por determinado intersse.
http://gruposaberviver.blogspot.com/

C. Berna disse...

Que o artigo ficou excelente, não precisa falar!

apenas que... o nariz vermelho é sempre nosso (4)

José Roberto disse...

Brilhante artigo caro Lucas,

É lamentável vermos que o país está atolado na lama da vergonha, da desonestidade e do mal-caratismo.

E sempre quem paga são as pessoas de boa índole, como nós leitores. Deplorável situação. Um misto de desgosto com perplexidade.

Parabéns! Fantástico!

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