sexta-feira, 4 de julho de 2008

“Colombianos: muitas felicitações”

O sorriso de alívio de Ingrid Betancourt após seis anos mantida como refém na selva colombiana. Um sorriso que foi repetido por todos na Colômbia e no mundo.

Foram com essas três palavras, ecoadas pelo mundo inteiro, que o presidente colombiano Álvaro Uribe mostrou a superação do seu país sobre a narco-guerrilha das FARC, que dessa sigla, sobrou apenas o C, de Colômbia.

O F, A e R, respectivamente de ‘força, armada e revolucionária’, não mais se aplicam ao grupo, que se podemos chamar assim, em sua “época de ouro” já impôs ao país uma área desmilitarizada, ou seja, sem o controle do governo. Hoje as FARC não são nem de longe a ‘força’ que tinham antigamente; são precariamente armados e o equipamento que possuem hoje é totalmente obsoleto - comparado ao armamento usado hoje pelo exército colombiano; e o ‘revolucionária’, inspirada numa ideologia marxista, não cabe mais hoje no contexto sul-americano. Caiu por terra faz tempo.

Mesmo esse ‘C’, é questionável: a Colômbia que as FARC idealizavam está à quilômetros de distância do atual estágio que passa o país – economia vibrante, instituições democráticas enraizadas e acima de tudo, o sentimento de segurança já sólido entre a população.

A consagração do líder colombiano e a vitória de todo o país, que em uníssono repudia hoje a narco-guerrilha, se deu pela simbólica, mas importante libertação da senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, após passar seis anos como refém das FARC. Junto com ela, foram libertos mais 14 reféns, entre onze policiais e soldados colombianos e três americanos funcionários do Pentágono.

A operação de libertação – ‘Xeque-Mate” - coroada de êxitos e com o nome fazendo jus ao resultado, recebeu aplausos de todos os países. Todos mesmo. Até mesmo da vizinha, com problemas de personalidade, a Venezuela. Hugo Chávez, o oportunista caudilho ‘bolivariano’, mudou o tom de sua retórica se dirigindo às FARC dizendo que “a causa (deles) hoje não tem mais espaço na América” e pedindo também que “entreguem suas armas”. Uma declaração no mínimo interessante para quem no início do ano pediu à comunidade internacional que retirassem a guerrilha da lista de organizações criminosas e terroristas. Na época, Hugo ‘El Supremo’ defendia a causa das FARC, dizendo que era legítima e que tinham seu apoio. E tinha mesmo: dados do computador de um membro das narco-guerrilha, morto no início do ano, mostraram que ‘El Supremo’ dava ajuda em dinheiro à eles.

Mas hoje, vendo que seus devaneios não ecoavam em mais ninguém, a não ser no não menos excêntrico presidente equatoriano Rafael Côrrea, Chávez viu suas idéias perderem espaço na América do Sul, que vê a democracia ganhando cada vez mais terreno.

Quem também ganhou espaço com todos esses episódios, foi o presidente Uribe, que, desde que assumiu o poder o poder há seis anos, nega qualquer negociação com as Farc, sempre apostando numa solução militar, com apoio político e enorme investimento financeiro por parte dos Estados Unidos, o chamado “Plano Colômbia” que já recebeu mais de $ 5 bilhões. Criticado por muitos por não ser tão diplomático, e podendo assim colocar em risco a vida dos reféns das FARC, Uribe mostrou que ele estava certo. Mantendo sabiamente a linha-dura, Uribe deu um golpe na guerrilha que tinha a senadora como moeda de barganha e troca por guerrilheiros presos pelo governo.

Com a popularidade batendo na casa dos 84%, Uribe se fortalece, enquanto proporcionalmente as FARC se fragmentam, tanto em número de combatentes, de respeito ou temor perante a população e principalmente sua causa. A tendência, e é isso que quer o governo colombiano, é que a guerrilha se dissolva aos poucos, em pequenos grupos para que um dia, haja a rendição total e também a libertação dos cerca de 700 que ainda estão em seu poder.

Rendição que já passa da hora, mas que inevitavelmente ocorrerá. E quando essa hora chegar, a Colômbia como também disse o presidente Uribe chegará “num caminho para a paz. À paz total.” Essas também três palavras, que hoje, é o sonho de toda uma nação.

8 comentários:

Michell Niero disse...

Não há mais espaço para movimentos de guerrilha armada na América do Sul. Concordo com o Lula, mas isso não pode coibir o movimento, a mobilização, a crença de que não está nada certo.

As FARC deixaram de lado os escrúpulos ao sequestrar Ingrid Bittencourt, mas há um valor histórico nisso tudo que estrapola a questão dos direitos humanos, quase única na imprensa brasileira.

A própria designação de grupo "narco guerrilheiro" é equivocada, pois não existem provas cabais de que existe relação das FARC com o tráfico de drogas. Mas não é a primeira vez que isso acontece.

No episódio da Chechênia, por exemplo, enquanto que a BBC (acertadamente) denominava os autores do episódio como um grupo guerrilheiro, Globo e cia designavam como "terrorristas chechenos".

Questão de sentido das palavras, mas que muda o curso de toda uma história.

Lair Oliveira disse...

Discordo do usuário acima, no tocante a chamar as FARC de narco-guerrilha. Há sim, provas cabais da relação da NARCO-guerrilha com o tráfico. Muitos dos altos comandantes, cultivam imensas plantações, não só na Colômbia, mas até em países vizinhos. Inclui-se o Brasil nisso, na região da fronteira.
Da onde acham que sai muito do dinheiro deles? Concordo que hoje em menor quantidade que no passado, mas não se pode tapar o sol com a peneira.
Concordo com o autor do post que a libertação de Ingrid foi um gesto simbólico, mas vital para que a máquina do tráfico e do terror seja desmantelada na Colômbia.
Também me lembro do episódio citado por Michell, da BBC. BBC é BBC. Perfeita em todas suas coberturas!
Sem mais, parabéns pelo post e que os outros 700 reféns das FARC não caiam no esquecimento.

Letícia Castro disse...

Tomara que tenha sido mesmo o golpe mortal para as FARC, realmente não cabe mais esse modelo guevariano de guerrilha (e de nenhuma outra, na verdade). E o Uribe é a figura chave nessa questão, sem dúvida.

Ma come mai non parli italiano? L'hai fatto beníssimo, Lucas, mi è piaciuto tanto! hehehe

Adorei ver que o Lucas era vc, do Sem Fronteiras. rs Eu tb adoro ler esse blog, é sempre certeza de leitura muito interessante e confiável. Parabéns!

Baci, amici!

Letícia.

guilherne disse...

Oh my, que italianada eh essa, hehehehehehhe!

bom, pro "El Supremo" (adorei, hehe), isso foi um baita baque, né? Esse Plano Colômbia é nada mais que uma ajuda americana e nada irrita mais o Chávez do que interferência americana aqui.

Fiquei emocionado quando vi Ingrid e os filhos na TV! Momento histórico!

Victor Oliveira disse...

As FARC passou de uma organização idealista para um motim de rebeldes narcotraficantes que se escondem por tras de uma causa.
Não há mais espaço para esses rebeldes no continente sul-americano, todos os países, incluindo a Colombia, em ascenção política, tendo ainda que se preocupar com rebeldes sem causa.
O resgate de Ingrid Betancourt foi o marco inicial para a desfragmentação dessa organização falida e absurda.

André Macieira disse...

As FARC são hoje um bando de abitolados, passando por uma crise de identidade e correndo sem rumo pelas florestas colombianas.
O resgate de Ingrid é de fato simbólico, mas um grande avanço para o governo de Uribe.
Adorei a análise atual da sigla FARC. Ótimo!

Jorjão disse...

O mundo agradece!!!!

Anônimo disse...

se a Colombia realmente quer se tornar um pais democratico, deve de dar espaco para livre expressão e se as farc realmente tem algum objetivo nobre,deve de se tornar um partido politico, para se expresar e dar seu recado.Só assim vamos realmente saber a verdade e o que esta atrás dessa bandalheira toda

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