quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Do porrete ao diálogo

O desafio da diplomacia e a postura da ala socialista pelo mundo - PARTE 01

Dominar, uma vocação estadunidense. Quem disse? O “Destino-Manifesto”, a crença que aqueles nascidos nos Estados Unidos da América estariam divinamente destinados ao expansionismo pós-independência, ajudado pelo "Homestead Act", que impulsionou o massacre de índios e a tomada de terras ao oeste que, mais tarde, fariam do país uma potência agrícola e pecuarista, além de render dividendos com o petróleo e criar neste povo o estigma de superioridade racial.

O’Sullivan, criador do termo, suscitaria nos estadunidenses o desejo de ultrapassar os limites entre os oceanos Pacífico e Atlântico, caminhando rumo a novas terras ao sul, e a outros continentes, inaugurando em tempos de corrida imperialista, a política do Big-Stick (Grande Porrete), fundamental para o domínio de países latino-americanos por meio da Doutrina Monroe - “América para os Americanos” - e territórios fora deste eixo, dentre eles, as Filipinas e o domínio conjunto de áreas no mundo árabe.

Por essas e outras, as relações exteriores dos Estados Unidos se mantiveram conflituosas até hoje. Sem fugir aos fatos, o Sem Fronteiras traz a você, alguns desses entraves diplomáticos, que mais uma vez recaem sobre um novo presidente eleito por aquele país. No caso, Barack Obama.

Castrismo e bolivarismo: pró-esquerda? Anti-ianque

A esquerda surgiu na vida dos estadistas Fidel Castro, Hugo Chávez e Evo Morales como saída para a luta anti-ianque, ou seja, a batalha contra os Estados Unidos. O país da América do Norte submeteu cubanos, venezuelanos e bolivianos a regimes militares bancados pelos governos estadunidenses. Fulgêncio Batista em Cuba, o aliado ianque Carlos Pérez na Venezuela e o golpe totalitário de “Novios de la muerte” na Bolívia, propiciaram revoltas nestes países, que decorreram na Revolução Cubana de 1959 - quando Fidel chegou ao poder - e as eleições dos nacionalistas Chávez (Venezuela) e Evo (Bolívia).

Os três compõem a ala mais radical à ação dos Estados Unidos na América Latina. A postura deles modificou-se em decorrência dos fatos e o socialismo surgiu como uma possibilidade de chegar ao poder ou de estabelecer um regime político inverso ao capitalismo ianque.

A “Crise dos Mísseis” em 1962, no período Kennedy e o embargo econômico imposto pelo país na Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1964, foram os episódios mais marcantes dessa relação conflituosa entre a esquerda latino-americana e estadunidenses. A desativação de Guantánamo, prisão onde ficam terroristas e homens tidos como “perigosos” pelos Estados Unidos, surge como primeiro ato de Obama para uma gradual e difícil reconciliação com o regime cubano, que certamente não terminará com ele. (Imagem - Galizacig)

O retorno dos sandinistas à Nicarágua

A intervenção estadunidense na Nicarágua de 1907, que derrubou Zelaya e instaurou um governo alinhado com a política ianque, fez eclodir duas revoluções populares: em 1912 e 1926, sendo a última liderada por César Augusto Sandino e seus amigos, que cederam à promessa de eleições diretas e livres. O guerrilheiro Sandino fora executado em 1934, por Anastácio Somoza, aliado dos Estados Unidos e primeiro ditador da dinastia hereditária que comandou o país entre 1936 a 1979, com o último Somoza exilado e depois assassinado pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).

A FSLN seguiu o legado do revolucionário assassinado, ao formar uma organização guerrilheira com forte apoio de camponeses sem terra, que lutaram contra a Guarda Nacional entre 1976 a 1979 e colocaram uma Junta de Reconstrução. Esta se debateu frente aos “Contras”, grupo opositor aos sandinistas, bancado pelos Estados Unidos.

Só em 1984, eleições populares estabeleceram Daniel Ortega como presidente. Economista e esquerdista, Ortega radicalizou a situação contra o governo ianque, que agiu com um embargo total, só suspenso com a eleição de Violeta Chamorro em 1990. Ortega retornou em 2006, com idéias social-democratas. Contudo, a conciliação com os Estados Unidos deve ser facilitada com Obama, já que Ortega considera sua vitória um milagre e a chegada de um símbolo da imigração e do povo ao poder (Imagem - FSLN/ El Quinto Infierno)

O regime “socialista” de Pyongyang

Desde o armistício de 1953, trégua e separação da Coréia - entre Sul capitalista e Norte socialista -, as relações do governo de Pyongyang com os Estados Unidos são bastante turbulentas, parecidas com as de Cuba. Os norte-coreanos, por exemplo, capturaram os tripulantes espiões do navio ianque USS Pueblo em 1968, e após 11 meses de negociação com Washington, liberaram seus membros.

Em reação a este e outros fatos, os Estados Unidos com Reagan colocaram a Coréia "socialista" no grupo dos terroristas em 1988, impondo ao país asiático, várias sanções. Um ano depois, descobre o projeto nuclear norte-coreano, que é suspenso pelo general-presidente Kim Jong-II, depois da queda das sanções.

O governo Bush reacende as discussões, denominando a Coréia do Norte como país pertencente ao “Eixo do Mal”. Em contrapartida, o governo de Pyongyang declara-se potência nuclear, qualifica com inútil qualquer reconciliação e lança de oito a dez mísseis em 2006, entre eles um Taepeng, capaz de chegar ao litoral norte dos Estados Unidos.

Um acordo multilateral entre EUA, Rússia, China, Japão e as duas Coréias fora tentado, uma ajuda econômica foi iniciada, mas os norte-coreanos surpreenderam, dizendo não liberar a inspeção de seus reatores aos estadunidenses - algo que difere do que fora veiculado na mídia ocidental.

E, ao que tudo indica, a Coréia “socialista” continuará seu jogo "tongmi bongnam" (abre e fecha) com Obama, deixando brechas para negociar e ao obter uma vantagem, regressará às velhas discussões. (Imagem - Kin Jong-II/ Geomundi)


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5 comentários:

Wander Veroni disse...

Oi, Lucas!

Impressionante a sua capacidade de alinhar os fatos históricos com a pauta recente que são os desafios que o Obama irá enfrentar no seu mandato.

Se tivesse a opinião de especialistas como historiadores, cientistas políticos e analistas do cenário internacional, era uma matéria pronta para ser publicada no caderno internacional ou até mesmo numa revista.

Mas você o caminho certo, já que o blog nos dá a permissão de usar qualquer recurso ou formato. Parabéns meu amigo: vc está no caminho certo! Fico orgulhoso, sem brincadeira.


Abraço

Guilherme disse...

Olha, o Wander disse tudo, e reconheço a dificuldade de se conseguir especialistas dispostos a conceder entrevistas para blogs - um desafio superado por poucos.

Lucas, já está no caminho de um redator de política e internacional. Incrível contextualização dos fatos.

Grande abraço.

Michell Niero disse...

Você foi brilhante na sua argumentação, Lucas, como sempre. Sou alinhando a Chomsky e concordo que os EUA são a grande potência terrorista do mundo, responsável por um derramamento de sangue sem igual no século XX. Eles não têm condições morais de encabeçar uma luta (ou guerra, como eles dizem) contra aquilo que eles são favoráveis e especialistas.

Foram o único Estado até hoje a ser condenado pela ONU, nos anos 80, por prática de terrorismo internacional no episódio da Nicarágua (condenação que Reagan desdenhou e que a ONU baixou a cabeça). Não precisa nem falar dos masssacres em Uganda, Ruanda, Timor Leste, a crise nos balcãs, a guerra no Afeganistão; em todas as situações os EUA mantiveram uma postura belicista, desumana, de força desmedida, conspiratória, cujos manuais militares do exército estadunidense definem como terrorismo. O que fazer com essa contradição? Eu prefiro não esconder.

um abraço.

Guilherme Freitas disse...

Os americanos não podem se passar de heróis mundiais, pelo seu passado e presente sanguinário. Eles agem pelos seus interesses, doa a quem doer. Se for para apoiar ditaduras o farão (como na África e América Latina). Se for para entrar em guerra, também irão a luta.

Esse sentimento anite-EUA é fruto da péssia política externa que eles fizeram ao longo de sua história, promovendo conflitos, vendendo armas, matando civis, apoiando golpes,etc...

Francisco Castro disse...

Olá, Lucas! O socialismo nos países, principalmente em desenvolvimento não tem tido o progresso esperado por falta de apôio dos países desenvolvidos. Em praticamente, todos eles temos a oposição ferrenha dos países ricos. Esses países são tão ou mais rejeitados do que os paises comunistas. É só observar o tratamento dado à China comunista e ao tratamento que é dado a países como a Venesuela e a Bolívia que têm ultimamente tido práticas parecidas com as ações socialistas.

Abraços

Francisco Castro

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