segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Tempos de amor e profissionalismo

Perfeitamente audível soaram as palavras cristãs nesta noite dominical que se passara, anunciando a história profética do menino que viera nos salvar e pregando a princípio, o desapego ao material em virtude da plenitude imaterial. Da semelhança entre as platônicas idéias e os dizeres da Bíblia, vê-se o quão fugaz são as relações e tudo que as cerca. Quão frágeis são as forças que alimentam o espírito natalino e a esperança de um ano posterior repleto de alegrias.

Ceifam as amizades e o amor. A entrega esconde a célula-mãe do materialismo: o dinheiro. E não obstante, o esporte também se corromperia, inebriado pelas vultosas quantias que separam olimpianos de meros mortais. Principalmente em si tratando de futebol, berço das mais insanas orgias financeiras. Em tempos de crise, os “boleiros” chutam de bico os murmúrios de assombrações que assolam os mercados e isolam no ar, as expectativas de desvalorização de seus passes.

O Velho Continente, El’Dorado verde circunscrito pelo mundo, que é redondo sim, como já diziam os filósofos da antiguidade clássica grega, a bola gira: nos gramados e além de cifras nos bancos. Contudo, “a festa acabou, a luz apagou”, a fonte secou, o mercado esfriou. E agora... ? O poeta em seu repouso descansa e assiste aos cartolas sambarem e puxarem o coro, que dita a moda 2009: a criatividade.

Sem dinheiro, intensificaram-se as trocas entre equipes brasileiras, na mesma proporção em que crescem os salários e as declarações de “profissionalismo”. Aos mais saudosistas, resta o pesar de que a paixão e a saudável rivalidade tenham sido entregues a trivial troca de escudos e camisas, que tanto confunde jornalistas, quanto torcedores, que não conseguem sequer lembrar a escalação de seu time do coração.

O Fenômeno, que há tempos não justifica o apelido dado a ele pelos nerazzurri - torcedores interistas – em 1997, mostra-se, pelo menos, um fenômeno de marketing que agitou o mercado e balançou as estruturas de nosso futebol, seja pelo seu salário milionário ou pelos milhões de camisas vendidas com o nome do jogador, que deixou seu clube do coração, o Flamengo, em segundo plano em nome desse jogador moderno, versátil e adaptável: o profissionalismo.

Outras equipes, menos audaciosas, apostam para o ano-novo na ciranda da bola, o vai e vaivém daqueles profissionais acostumados a mudar de cores, horizontes e rivais. Jadílson acerta com os dirigentes atleticanos sua ida para a Cidade do Galo, após uma boa temporada pela equipe da Toca da Raposa. Leandro Amaral, que deixou com grande lástima as Laranjeiras, retornou ao Vasco da Gama pedindo perdão, jurando amor, e pode voltar ao tricolor carioca novamente, sem juras, mas com empenho e seriedade.

Talvez nós sejamos os culpados por este processo. Afinal, alimentamos durante anos o “amor à camisa”, algo impensável (aos atletas) em um jogo que movimenta milhões em público e renda. Milhões que, atualmente, são alcançados com o tal profissionalismo, que não entra em campo, não cobra tiro de meta, escanteio ou lateral, mas que nos bastidores dá suporte aos campeões, haja vista o Internacional e o São Paulo, exemplos de que o respeito à instituição, organização e comprometimento são bases para o sucesso.

7 comentários:

Rodrigo Piva disse...

Um belo artigo que revela de forma nua e crua a realidade do futebol atual.

Eu como corintiano, posso afirmar que o último "time" que vi, foi a época do Viola, Neto, Ronaldo... De lá pra cá, quem passa pelo time são profissionais, mas difícil esconder a realidade extra-campo que toma mais tempo no pensamento dos atletas do que o que realmente deveria.

Abração e parabéns!

Guilherme Freitas disse...

Graças as sucessivas péssimas gestões dos dirigentes a frente de clubes e federaçãoes, o futebol brasileiro está falido. A única fonte de renda de muitos clubes é revelar jogadores e os venderem ao exterior ainda jovens, sem esles estarem totalmente preparados para isso. Infelizmente essa é a triste realidade do nosso futebol que pelo menos consegue revelar grande atletas anualmente.

Craques como Hernanes e Ramires estão com os dias contatos, talvez até o meio de 2009, quando uma nova temporada européia tiver início. E com ela a debandada dos nossos melhores jogadores.

Daniel Leite disse...

Realmente, a roda gigante vigente no futebol brasileiro incomoda. E o pior de tudo: ela vigora não somente entre os jogadores, mas também nos âmbitos de outros trabalhadores da bola.

Vanderlei Luxemburgo fala em "profissionalismo" a toda hora. Seu amigo pessoal, Nilton Petrone, o Filé, deixou o Santos no final de 2007, para acompanhá-lo ao Palmeiras. Agora, já desceu a serra novamente. Assim como deverá fazer em breve o pentacampeão brasileiro.

Bebeto de Freitas, que jurou amor ao Botafogo e até fez um bom trabalho durante os últimos seis anos, resolveu aceitar o convite para ser dirigente remunerado no Atlético-MG.

Paulo Carneiro, presidente do Vitória por mais de uma década, hoje é o "homem forte" do futebol no EC Bahia!

Ótimas palavras, Lucas.

Um abraço e Feliz 2009!

LETÍCIA CASTRO disse...

É verdade, Lu, a organizaçao só rende frutos de bom trabalho e realizaçoes. Quem sabe as duas equipes nao estejam plantando uma sementinha? Os demais todos os respeitam e já perceberam que é a receita a ser seguida.
E eu tô aproveitando pra passar por aqui e desejar O MELHOR ANO DE NOSSAS VIDAS aos meus queridos amigos e parceiros.
Que Deus abençõe a todos vcs e seguimos juntos e misturados!
Beijos, babies!

Wander Veroni disse...

Oi, Lucas!

Artigo brilhante! Profissionalismo versus amor ao time...na verdade não sei se é o correto, mas o que sinto, de forma bem leiga, é que não existe mais o amor à camisa: o atleta ou o profissional do esporte vai para a equipe que lhe oferecer a melhor condição. Isso tem um lado positivo, mas o torcedor roxo, fica sentido com a falta de amor ao clube.

Abraço e feliz ano novo!

Atreyu disse...

Bom Blog!
=D
Feliz 2009

Guilherme disse...

Lucas,

Bela crônica esportiva! E reveladora do que se tornou o esporte, no Brasil e fora daqui. O amor e a entrega deram lugar as vantagens de ser atleta, ter reconhecimento e receber salários - não na maioria dos casos.

O futebol sofre com os altos custeios que fazem os jogadores migrarem de time para time, sem criarem uma identidade com as torcidas e os clubes que defenderam.

Sofreremos deste mal, que infelizmente, chegou tarde no nosso futebol.

Um abraço nostálgico.
Guilherme.

Melhor visualização com o navegador Mozilla Firefox